Refrigerar deixou de ser apenas uma questão de sobrevivência do silício em data centers de IA e virou linha de receita. É essa a tese por trás do Frore LiquidJet, o coldplate que a Frore Systems afirma ser capaz de derrubar em até 12 °C a temperatura de junção da futura GPU Nvidia Rubin — e, com isso, entregar cerca de 15% mais geração de tokens quando a queda fica na casa dos 10 °C. Para quem opera infraestrutura, a leitura é direta: cada grau economizado no die vira desempenho sustentado, e desempenho sustentado vira dinheiro.
Segundo reportagem da Tom’s Hardware, assinada por Anton Shilov e publicada em 5 de agosto de 2026, a Frore divulgou um white paper defendendo que otimizar a cadeia térmica inteira — encapsulamento da GPU, material de interface térmica (TIM), coldplate e temperatura do líquido de entrada — pode elevar em mais de 30% a quantidade de tokens gerados por watt. O ponto importante: os números vêm de um modelo térmico analítico, não de bancada. Vale como projeção de engenharia, não como benchmark validado.
Por que 10 °C mudam tanto o jogo
A física aqui é bem conhecida de quem já dimensionou sala de servidores. A corrente de fuga (leakage) dos transistores cresce de forma exponencial com a temperatura e praticamente dobra a cada 10 °C a mais na junção. No mesmo intervalo, a potência de chaveamento sobe algo em torno de 2%. Resultado: um chip quente precisa de tensão maior para manter o mesmo clock, o que empurra o sistema de DVFS a reduzir frequência para respeitar os limites térmicos e de potência.
Os aceleradores da geração Rubin devem dissipar até 2.400 W, com temperatura de die passando facilmente dos 95 °C — valor que a Frore adota como Tj(max) de referência na análise. Não é que 95 °C destrua o silício no curto prazo; o problema é que, muito antes do throttling clássico, a eficiência já está sendo corroída. Por isso, mesmo uma GPU que nunca encosta no teto térmico rende mais quando opera mais fria.
A equação que governa tudo
A Frore resume o dimensionamento em uma fórmula simples: Tj(max) = T(entrada) + Q × R(total). Ou seja, a temperatura máxima de junção depende da temperatura do líquido na entrada, da potência dissipada e da resistência térmica total do conjunto. Essa resistência é a soma de três camadas:
- o encapsulamento da GPU (com ou sem heatspreader integrado);
- o material de interface térmica entre die/pacote e a solução de refrigeração;
- o projeto do coldplate propriamente dito.
Cada camada empilha resistência. E resistência térmica, em data center de IA, é imposto sobre a receita.
O que a Frore fez de diferente no coldplate
Coldplates convencionais são usinados por skiving, técnica que produz microcanais longos e retos dentro de um bloco de cobre. A Frore trocou a rota de fabricação: usa processos emprestados da indústria de semicondutores — corrosão química e bonding — para construir microestruturas tridimensionais em cobre. Segundo a empresa, esse tipo de geometria não sai de máquina convencional a custo viável.
Na prática, o LiquidJet aposta em:
- microcanais curtos posicionados exatamente sobre os hotspots do die;
- múltiplos estágios de troca térmica;
- roteamento de fluxo desenhado a partir do mapa de densidade de potência da GPU;
- vazão de líquido menor para atingir a mesma temperatura de junção.
Esse último item tem efeito econômico relevante. A Nvidia projetou o Rubin para operar com líquido entrando a até 45 °C, o que permite operar em “free cooling”, sem chillers mecânicos. Baixar a temperatura de entrada melhora a eficiência da GPU, mas só compensa se a energia gasta pelo chiller for menor que o ganho de receita. Nas contas da Frore, um coldplate skived exige um COP de chiller próximo de 6,7 para valer a pena; com o LiquidJet, esse ponto de equilíbrio cai para cerca de 4,1 — uma diferença que torna a refrigeração mecânica viável em muito mais cenários. Curiosamente, a vantagem do LiquidJet aparece maior no Rubin do que no Blackwell, por causa da densidade de transistores superior da nova geração.
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Delid em produção: a aposta arriscada dos hyperscalers
A parte mais polêmica do documento trata da remoção do heatspreader integrado (IHS) e do TIM de grafeno que fica entre o die e a tampa. Sem essa camada, o modelo da Frore aponta redução de até 20 °C na temperatura de junção e ganho de até 35% em tokens por watt. Ainda conforme a Tom’s Hardware, há provedores de nuvem estudando rodar Rubin “delidado” em ambiente de produção justamente por causa desse retorno.
O preço disso é confiabilidade mecânica. O Rubin usa empacotamento CoWoS-L da TSMC, com pontes que interligam os dois dies; sem o IHS, essas pontes ficam bem mais expostas a trincas. Não é hipótese remota — na era Hopper já houve GPUs rachadas com certos coolers. Além disso, manter pressão de contato uniforme sobre múltiplos dies expostos é bem mais difícil do que sobre um processador monolítico.
Os TIMs também pesam. O Rubin deve sair de fábrica com índio líquido metálico e superfícies de contato banhadas a ouro. A Frore argumenta que um pacote sem tampa combinado a um material de mudança de fase de alto desempenho, como o PTM7950, ainda oferece resistência térmica menor do que o pacote fechado com metal líquido — o que renderia até 14 °C de vantagem e até 28% a mais em tokens/W.
O que isso significa para a empresa brasileira
Nenhuma empresa média no Brasil vai comprar coldplate para Rubin tão cedo. Mas o raciocínio da Frore escala para baixo e é imediatamente aplicável a quem tem rack, sala-cofre ou pequeno data center próprio. Alguns desdobramentos práticos:
- Custo de energia: com tarifa industrial e bandeiras tarifárias, cada ponto de eficiência térmica no Brasil vale mais do que vale nos EUA. Reduzir a carga de climatização é redução direta de OPEX.
- Clima: boa parte do território brasileiro tem temperatura e umidade que dificultam o free cooling puro. Projetos que baixam o COP de equilíbrio do chiller mudam o cálculo de viabilidade por aqui.
- Densidade por rack: quem está colocando servidores de GPU para IA sente o limite antes na refrigeração e na energia do que no processamento.
- Continuidade: temperatura estável significa menos throttling, menos variação de desempenho e menos incidente térmico em horário comercial.
Preço e disponibilidade no Brasil
Sendo direto: não há preço nacional nem previsão pública de disponibilidade do LiquidJet no Brasil. É um produto de venda direta a operadores de data center e integradores de larga escala, e o próprio estudo da Frore trata de uma GPU que ainda vai chegar ao mercado. O que já existe e está disponível para CNPJ aqui é a camada de infraestrutura que sustenta esse tipo de projeto: servidores, workstations, no-breaks, racks e sistemas de energia — itens que a GOIG comercializa com nota fiscal, faturamento e condições B2B.
Perguntas frequentes
O que é o Frore LiquidJet?
É um coldplate de refrigeração líquida direta fabricado com técnicas de semicondutores (corrosão e bonding), que cria microestruturas 3D em cobre posicionadas sobre os pontos mais quentes da GPU, em vez dos microcanais retos dos coldplates usinados por skiving.
Os ganhos de 10 °C e 15% já foram medidos em laboratório?
Não. Os números vêm de um modelo térmico analítico da própria Frore, baseado na equação de resistência térmica e em parâmetros públicos ou estimados do Nvidia Rubin. São projeções, não resultados experimentais.
Vale a pena remover o heatspreader (delid) de uma GPU de servidor?
No modelo da Frore, o ganho chega a 20 °C e até 35% mais tokens por watt, mas o risco mecânico é alto: pacotes CoWoS-L ficam sujeitos a trincas nas pontes entre dies e exigem pressão de contato uniforme. Em ambiente corporativo comum, o custo de falha e a perda de garantia costumam anular a vantagem.
Isso afeta quem tem um data center pequeno no Brasil?
Indiretamente, sim. A lógica de reduzir resistência térmica para ganhar eficiência se aplica a qualquer sala de servidores. Na prática, isso se traduz em revisar climatização, fluxo de ar, pasta térmica e densidade por rack antes de simplesmente comprar mais máquinas.
Quando o Nvidia Rubin chega ao mercado?
O Rubin é a próxima geração de aceleradores de data center da Nvidia, sucedendo a linha Blackwell, com potência projetada de até 2.400 W por GPU. A disponibilidade comercial ampla e os preços para o mercado brasileiro ainda não foram divulgados.
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