A notícia ruim para quem monta ou renova computador é que o pior ainda não passou. A Samsung, uma das três maiores fabricantes de memória do mundo, sinalizou que a crise de oferta de memória RAM deve ser mais severa em 2027 do que em 2026, com o aperto se estendendo até pelo menos 2028.
Segundo reportagem da PC Gamer, a projeção foi apresentada por Daniel Oh, responsável pela área de relações com investidores da Samsung Electronics, durante teleconferência com o mercado. Na avaliação da empresa, a restrição de fornecimento não é um soluço de curto prazo — é a nova condição de operação do setor pelos próximos anos.
O que a Samsung efetivamente disse
Três pontos da fala merecem atenção. Primeiro, a expectativa de que 2027 seja mais apertado que 2026, invertendo a lógica de que crises de oferta se resolvem no ciclo seguinte. Segundo, a afirmação de que dificilmente haverá aumento relevante de oferta incremental até 2028. Terceiro, e talvez o mais revelador: a companhia admite visibilidade limitada para além de 2029.
Some-se a isso um detalhe que explica muito do comportamento de preço no varejo: a Samsung informou que entre 60% e 70% da sua capacidade total de produção já está comprometida com acordos plurianuais de fornecimento. Clientes grandes estão travando volume com anos de antecedência, o que reduz ainda mais o que sobra para o mercado aberto.
A demanda represada rola para o ano seguinte
A empresa também apontou que a demanda não atendida em 2026 deve transbordar para 2027, agravando o quadro. É um efeito acumulativo: cada pedido que não é entregue no ano corrente entra na fila do ano seguinte, competindo com a demanda nova.
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Não é um caso isolado da Samsung
A PC Gamer destaca que a SK hynix, outra integrante do trio dominante do setor, também sinalizou preocupação com a oferta. No caso da SK hynix, analistas atribuíram parte do desempenho abaixo do esperado à desaceleração nos embarques de HBM4 — a memória de alta banda usada em aceleradores de IA.
O detalhe da HBM4 é importante porque explica a raiz do problema. Memória de alta banda ocupa capacidade fabril e etapas de empacotamento avançado que competem diretamente com a produção de DRAM convencional. Quando a indústria de IA puxa HBM, ela reduz o que sobra para o pente de memória que vai no seu desktop.
O que muda para o comprador no Brasil
No mercado brasileiro, esse tipo de aperto chega com atraso e amplificado. O importador precisa recompor estoque a preço novo, o câmbio entra na conta e a carga tributária multiplica cada ponto percentual de reajuste na origem. Na prática, um aumento de 20% na DRAM global raramente se traduz em 20% na etiqueta local.
Para o consumidor final, isso significa que a janela de “esperar cair” praticamente fechou neste ciclo. Para a empresa, o impacto é orçamentário: projetos de renovação de parque, ampliação de servidores e virtualização precisam ser reprecificados com premissas mais conservadoras.
Como planejar compra de memória em cenário de escassez
- Antecipe projetos já aprovados. Se a verba existe e a necessidade está mapeada, adiar significa comprar menos com o mesmo dinheiro.
- Dimensione com folga uma única vez. Sair de 16 GB para 32 GB agora costuma custar menos do que fazer dois upgrades separados ao longo de dois anos.
- Considere o conjunto. A pressão de memória também afeta SSDs, já que NAND e DRAM dividem cadeia produtiva e capacidade de empacotamento.
- Padronize modelos no parque corporativo. Uniformizar módulos facilita reposição e reduz risco de incompatibilidade quando o mercado está com estoque irregular.
- Negocie prazo, não só preço. Faturamento em até 90 dias muda o fluxo de caixa do projeto tanto quanto um desconto direto.
O efeito colateral que quase ninguém calcula
A crise de memória não fica confinada ao pente de RAM. Ela contamina toda a cadeia de produtos que dependem de DRAM ou NAND — e essa lista é maior do que parece.
- Placas de vídeo: usam memória dedicada, e o custo desse componente é parcela relevante do preço final da placa.
- SSDs: muitos modelos usam cache DRAM, e a NAND divide capacidade de empacotamento com a produção de memória.
- Notebooks e mini PCs: em máquinas com memória soldada, o reajuste entra direto no preço do equipamento, sem opção de escolher módulo mais barato.
- Servidores e virtualização: são os que mais sofrem, porque densidade de memória é justamente o que define quantas máquinas virtuais cabem em cada nó.
- Smartphones e dispositivos embarcados: também disputam a mesma capacidade produtiva.
Para quem faz orçamento anual de TI, isso significa que a linha “memória” não é isolável. Um reajuste na DRAM aparece espalhado por praticamente todas as categorias do plano de compras, o que costuma pegar gestores de surpresa no meio do exercício.
O recado que fica
O setor de memória vive um paradoxo: fabricantes registram resultados recordes justamente enquanto alertam sobre escassez. Para quem compra, a leitura prática é uma só — a normalização de preço não está no horizonte visível, e planejamento vale mais do que espera.
Quem trata memória como item de commodity que “sempre barateia” vai ser surpreendido no próximo orçamento. Quem trata como insumo estratégico, com compra planejada e fornecedor confiável, atravessa o ciclo com menos dano.
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Perguntas frequentes
Por que a memória RAM está cada vez mais cara?
A demanda de data centers de inteligência artificial absorve grande parte da capacidade produtiva das fabricantes. Com oferta limitada e demanda crescente, o preço sobe e a disponibilidade para o mercado de consumo cai.
Até quando deve durar a escassez de memória?
A Samsung indicou em teleconferência que as restrições devem ser mais severas em 2027 do que em 2026, com o aperto persistindo até 2028. Além de 2029, a própria empresa afirma ter visibilidade limitada.
O que são acordos plurianuais de fornecimento?
São contratos de vários anos em que o cliente garante volume de memória com antecedência. A Samsung informou que de 60% a 70% da sua capacidade total já está comprometida com esse tipo de acordo.
Vale a pena comprar memória RAM agora ou esperar?
Considerando as projeções de oferta restrita até 2028, esperar tende a significar pagar mais. Para quem tem projeto de upgrade ou renovação de parque definido, antecipar a compra reduz o risco de reajuste.
Quanto de memória é recomendado hoje?
Para uso corporativo geral, 16 GB continua adequado. Para jogos modernos, edição e cargas de IA local, 32 GB é o novo patamar de conforto. Estações de trabalho pesadas já pedem 64 GB ou mais.
